REVISTA TERCEIRA IDADE

APOSENTADORIA FELIZ: IDOSOS CRIAM "REPUBLICAS" PARA VIVER ENTRE AMIGOS

Na Espanha há oito projetos construídos para se passar a última etapa
da vida com pessoas queridas

Antonia Laborde - Cuenca (Espanha)

A amizade de Víctor Gómez e Cruz Roldán tem 46 anos. Conheceram-se em uma excursão na Serra Nevada, na Espanha, com um grupo de caminhada. “Mas era mais do que isso, era um grupo de estilo de vida”, relembra Roldán, hoje com 79 anos. Quando estavam com meio século de vida, perguntaram-se: "por que não nos vemos envelhecer?". Quinze anos depois, moram com suas respectivas esposas em Convivir, uma república autogerida na cidade espanhola de Cuenca. Dezenas de amigos e familiares se entusiasmaram quando os dois casais de amigos propuseram a ideia de viver juntos, e hoje são 87 sócios que se identificam com o lema “dar vida à idade”.

O condomínio conta com todos os serviços de um asilo para idosos tradicional. “Mas não ficamos sentados o dia todo em uma cadeira entre desconhecidos”, explicou um dos amigos. Compartilham tarefas, mantêm-se ativos, mas conservam sua independência.

A velhice chega mais tarde hoje, mas pensa-se nela desde cedo. Os mais velhos atualmente —especialmente europeus e japoneses— vivem mais e não querem passar a última fase da vida entre desconhecidos ou “ser uma carga para os filhos”. É o que demonstra um estudo de 2015, realizado pelo ministério da Saúde espanhol, no qual mais da metade dos pesquisados acha pouco provável viver em um asilo, enquanto quatro em cada dez veem como alternativa o cohousing. São moradias criadas e administrada pelos próprios idosos, que decidem entre amigos como e onde querem viver sua aposentadoria. Os apartamentos pertencem a uma cooperativa, mas podem ser deixados de herança para os filhos. Na Espanha, há oito projetos construídos e vários em gestação.

Falta pouco para a hora do almoço na Convivir e em uma das muitas salas comuns ouve-se Raffaella Carrà. Um aparelho de rádio e toca-fitas Sony vibra ao sol da música Porque El Amor, enquanto as pessoas dão risada. É uma oficina de risoterapia dirigida por Lourdes Ranera. Aprendeu essa técnica na Índia, ensinou-a por mais de 20 anos em Barcelona, e hoje faz rir todos os dias seus colegas de república. Os que não estão rindo, estão trocando de roupa depois de uma aula de ginástica a cargo de Timoteo, que antes de se aposentar era professor. Outros participam da aula de macramê oferecida por Amelia López, de 88 anos, a mais velha do lugar. A idade média é de 70 anos, mas respira-se um ambiente juvenil. “Vir para cá me rejuvenesceu! É a graça de morar em uma residência quando ainda estamos bem”, conta López. “Isso ajuda a não pensar em quando chegará sua hora ao parar de trabalhar”, acrescenta Roldán.

Apesar desse tipo de moradia colaborativa estar se consolidando há pouco tempo na Espanha, Rogelio Ruiz, arquiteto da eCohousing, recebeu quase 1.000 pedidos de informação sobre este modelo de república. Sua equipe venceu um concurso de arquitetura com uma das duas residências do tipo construídas em Madri, chamada de Trabensol: “Achávamos muito estranho fazer casas para pessoas que não sabíamos quem eram, nem como queriam morar. Agora tomamos as decisões com eles. Se há alguém que trabalhou com jardinagem, opina nas áreas verdes, e se há uma enfermeira, fala sobre como deve ser a área de saúde”.

Todas as residências de cohousing devem cumprir os requisitos de um ambiente tradicional para idosos: banheiros geriátricos, móveis sem quinas, botões de emergência em todos os quartos, entre outras coisas.

Diferentemente da situação em Convivir, onde todos que querem um apartamento devem ter um conhecido e ser sócios, em Trabensol a oferta é para o público em geral. Entretanto, ainda custa caro viver em uma república para idosos: os valores para associar-se a uma cooperativa de cohousing na Espanha – que não isenta os gastos mensais— vai dos 50.000 aos 140.000 euros (entre 175.000 a 490.000 reais). Esse gasto vai sendo amortizado nas residências que também recebem não sócios. Na Fuente de la Peña, também na espanha, se você for sócio paga 2.080 euros (7.280 reais) por mês por casal, em vez de pagar um “aluguel” de 3.150 euros (11.025 reais). Os custos variam também se o residente quer serviços de limpeza, lavagem de roupas, comida ou só acesso aos serviços de saúde, como enfermaria e fisioterapia.

Das experiências espanholas, os defensores concordam que os interessados se aproximam mais dos 50 que dos 70 anos. Nemesio Rasillo, um dos fundadores da residência Brisa del Cantábrico, onde a idade média é de 63 anos, atribui isso a que “os mais idosos passam ao cuidado familiar”. Mas há muitos adultos que ainda não se aposentaram e já têm claro que não querem ser “uma carga para seus filhos”. Nesta residência, uma das normas é poder haver no máximo 15 pessoas nascidas no mesmo ano, para garantir a variedade geracional. Cada cooperativa tem suas regras, mas uma que se repete em relação à questão da dependência é que desde que um residente se soma ao projeto, parte de seu dinheiro vai para um fundo social. “Assim, quando algum dos colegas precisar de uma assistência especial, dividimos entre todos e não será um gasto expressivo”, explica Roldán.

É a hora da siesta em Cuenca, e “o castelo do século XXI”, como o chamam os moradores de Convivir, parece ter parado no tempo. Ninguém circula pelos longos corredores dos dois andares, as raquetes de pingue-pongue descansam sobre a mesa e o salão de beleza está fechado a chave. É o momento de desfrutar do apartamento que cada um decorou a seu gosto. “Em vez de meu filho se tornar independente, eu é que me tornei”, diz em voz baixa Luis de la Fuente, enquanto fecha a porta de seu novo lar.

 

NOVO PUBLICO: PAÍS JÁ TEM 5,2 MILHOES DE IDOSOS NA INTERNET

Levantamento mostra que este grupo gasta R$ 15,6 bi em compras on-line

A um clique de distância. Lydia de Lucca, de 93 anos, e os filhos Francisco, de 69,
e Suely, de 67, costumam fazer compras pela internet
A terceira idade está invadindo a internet no Brasil e o tabu de fazer compras no mundo virtual começa a ser quebrado. Uma pesquisa do Instituto Locomotiva revelou que 5,2 milhões de pessoas com mais de 60 anos já utilizam regularmente a web no país. Em apenas oito anos, foi um salto de 940%, o equivalente a 4,8 milhões de novos usuários. A pedido do GLOBO, a Ebit, empresa especializada em comércio eletrônico, calculou que o consumidor mais velho já movimenta R$ 15,6 bilhões em compras on-line. Segundo a Ebit, nenhuma outra faixa de comprador on-line teve avanço tão rápido nos últimos anos. De olho nesse fenômeno, as empresas começam a se preparar para conversar com os idosos conectados.



— Mais de 26 milhões de pessoas têm mais de 60 anos no país. É uma parcela da população com renda somada que chega a R$ 330 bilhões. A internet definitivamente passou a influenciar os hábitos de consumo desse público, que cada vez mais usará a rede para se informar, participar de redes sociais ou fazer compras — explica Renato Meirelles, sócio do Instituto Locomotiva, que realizou o levantamento em todo o país, em julho, com base em 1.950 entrevistas.

A família da aposentada Lydia de Lucca, de 93 anos, ilustra esse novo perfil. Conectados há alguns anos, eles buscam comodidade e preços mais baixos na web. Com a ajuda dos filhos, Sueli, de 67 anos, e Francisco, de 69 anos, Lydia compra pela internet os remédios para pressão e vitaminas que usa regularmente. A família gasta, em média, R$ 500 no mês. Eles ainda preferem fazer as compras pelo notebook em lugar do celular, mas Sueli usa seu smartphone para se informar e participar de redes sociais. O irmão dela, Francisco, trabalha como corretor de seguros, e o e-mail é sua ferramenta de trabalho. Ele costuma comprar eletrodomésticos e produtos de informática na rede.

— Sempre fui familiarizado com a internet. Com as compras, buscamos comodidade. E, claro, sempre tomamos o cuidado de comprar por sites conhecidos — diz Francisco.


TÍQUETE DE COMPRA MAIS ALTO QUE A MÉDIA


De acordo com a Ebit, os itens perfumaria e saúde são os mais procurados pelos internautas mais velhos, seguidos por eletrodomésticos, casa e decoração, moda e acessórios, e telefonia celular, nesta ordem. Além disso, o tíquete médio gasto nos sites pelo consumidor com mais de 50 anos é de R$ 411, contra R$ 388 da média de todas as idades. No ano passado, dos R$ 41 bilhões gastos em e-commerce no Brasil, esse público foi responsável por 35%. E a tendência é que o gasto dessa turma cresça ainda mais.

— Iniciamos o mapeamento do e-commerce brasileiro há 16 anos. Lá atrás, esse público representava 5% dos pedidos feitos pela internet. No ano passado, o percentual chegou a 33%. Nenhuma outra faixa de compradores cresceu tanto e tão rápido — avaliou Guasti.

A demanda mais intensa da terceira idade no e-commerce já é relatada pelos varejistas. A Ultrafarma, rede de farmácias, que tem uma campanha publicitária estimulando seus clientes a comprarem pelo canal virtual, detectou crescimento expressivo da parcela de clientes da terceira idade desde 2013. O público com mais de 60 anos representava menos de 1% entre os clientes que compravam regularmente pelo site três anos atrás. Hoje, já são 10%, e a velocidade de crescimento é a mais alta entre todas as faixas de idade.

— A maioria dos clientes de medicamentos de uso contínuo é da terceira idade. Mas isso não se traduzia no ambiente on-line, já que havia a barreira tecnológica. Com os celulares ganhando mais recursos e se tornando a forma mais comum de acesso à web, isso começou a mudar. Nos últimos anos, a terceira idade é a parcela de público que mais cresce nas compras do site — afirmou Ricardo Vieira da Silva, diretor de e-commerce da Ultrafarma.

Yone Gueldini Mendes, de 63 anos, compra de tudo pela internet, mas antes usa sites de busca para checar preços
Nas redes Extra e Pão de Açúcar, o e-commerce de alimentos registrou um crescimento dos pedidos de 10% por compradores acima de 60 anos entre 2014 e o ano passado. Para este ano, a expectativa é que o crescimento seja de cerca de 30%.

O especialista em varejo Eduardo Terra, presidente da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo, confirma que a chegada dos smartphones e de aplicativos de compra, mais fáceis de mexer e que concluem a operação com poucos cliques, ajudaram os mais velhos a quebrarem a barreira que existia entre eles e o mundo digital.

— Resolvida essa questão da cultura digital, você nota que o e-commerce se encaixa ainda mais às necessidades de consumo das pessoas com mais de 50 ou 60 anos. Na compra on-line você não precisa sair de casa, não precisa carregar peso, pode comparar preços sem muito esforço e pode ler com calma as informações de produtos sem se expor, por exemplo, a um atendente sem paciência — disse Terra.

A pedagoga aposentada Yone Gueldini Mendes, de 63 anos, há alguns anos só faz compras on-line, exceto as de supermercado. Em sua lista virtual estão roupas de cama, presentes para o neto, remédios e eletrodomésticos. Yone sempre procura em sites de busca antes para checar os preços em diferentes lojas.

— Frutas e verduras, por exemplo, eu acho que é preciso tocar, escolher bem. Assim como os outros produtos de supermercado, nos quais gosto de ler o rótulo e comparar com as outras opções na prateleira — contou ela, que ganhou confiança para mexer no computador, celular e tablet quando passou a ter os seus próprios dispositivos, sem dividir com filhos ou marido.

— Depois disso, passei a comprar só on-line e tenho certeza de que faço melhor negócio do que comprando pessoalmente — disse.

Já a também pedagoga aposentada Maria Lucia Almeida Salles, de 66 anos, conta que faz inclusive o supermercado pela web.

— É impossível hoje eu carregar todo o peso dos enlatados. Prefiro pagar frete e receber em casa — lembrando que itens difíceis de encontrar no varejo tradicional são facilmente localizados na rede, como pijamas de malha fria, que ela adora.


CONFRARIA DE VINHOS E CHURRASQUEIRA NA REDE


Até mesmo os bancos estão estimulando a parcela de clientes mais idosos a usar os canais digitais. O Itaú Unibanco colocou no ar uma campanha que caiu no gosto da população ao mostrar duas senhoras, de 80 anos, totalmente conectadas, usando os aplicativos da instituição, além de outras modernidades como Snapchat.

— Miramos exatamente o público mais idoso. Há muitas propagandas sobre uso de tecnologia que são muito estereotipadas, nas quais essas novidades aparece como coisa de gente mais jovem. As soluções digitais valem para todas as idades — afirma Eduardo Tracanella, superintendente de Marketing do Itaú Unibanco.

Maria Lucia Almeida Salles, de 66 anos, faz até comprars de supermercado pela internet
O comerciante Mario Suzuki, de 64 anos, conta que programa todos os pagamentos pessoais e os de sua empresa pelo internet banking. Com isso, dribla a possibilidade de esquecer as datas de vencimento e economiza tempo de fila nos bancos. Ele revela que ainda tem certo receio de fazer compras pelo mundo virtual, por isso sempre escolhe os sites mais conhecidos. Mas há três anos vem participando cada vez mais desse universo. Já entrou numa confraria de vinhos pela web, e comprou uma adega e uma churrasqueira usando seu notebook.

— O uso da internet é intuitivo. E o mundo virtual é um caminho sem volta — diz ele.

Para a psicóloga Silvia Carvalho, o uso da rede pela terceira idade é altamente positivo já que estimula a comunicação e a prática de novas atividades, facilitando estabelecer novas conexões cerebrais:

— Quando a idade avança, a tendência é a pessoa repetir o que sabe fazer. A internet é um campo fértil de atividades e aprendizado. É fundamental para a saúde se arriscar em novas habilidades.

 Fonte: O Globo