OS 70 ANOS DE MICK JAGGER, O MENINO DE OURO DO ROCK

Cantor aniversaria nesta sexta-feira com os Rolling Stones de volta ao centro das atenções e faturando alto

Nos anos 1970, os Rolling Stones viviam seu grande momento de popularidade. O vocalista Mick Jagger, ainda rondando os 30 anos, avisava: “Não quero ser um astro de rock a vida toda, tocando em Las Vegas para as velhinhas”. Nessa sexta-feira, data em que completa 70, o inglês chegou próximo de cumprir sua própria profecia. Ele segue como astro de rock.

Não exatamente para as senhoras saudosas dos Stones num intervalo da jogatina, mas para uma gama variada de fãs, como as cerca de 100 mil pessoas, muitas delas bem jovens, que foram ver, em junho, a banda em sua primeira participação no festival britânico de Glastonbury, palco das novidades rock.

Ali, em mais um dos seus shows comemorativos dos 50 anos de carreira (a turnê já vendeu 24 milhões de libras em ingressos, dos quais 16 milhões serão embolsados pela banda), os Rolling Stones ocuparam novamente o centro das atenções. E foram os recordistas de público do festival. Se alguém tem a maior parte da responsabilidade por isso é o ex-estudante de London School of Economics que aplicou sua visão financeira à indomável entidade conhecida como banda de rock. “Todo mundo gostaria de ter feito mais coisas na vida. Ser um astro de rock é algo que demanda pouco da sua inteligência”, desdenhou ele, em entrevista à BBC, em Glastonbury. “Mas aí você tenta fazer o melhor disso.”

Observador atento dos movimentos de Mick Jagger nessas últimas cinco décadas, o cantor e compositor Lulu Santos vê nele um personagem além da música:

— Independentemente de ter feito à Humanidade o favor transcultural de ajudar a disseminar o blues dos negros americanos e suas ramificações, Mick tem sido um espelho das transformações da própria sociedade ocidental, da inquietação e rebeldia, sem jamais deixar de se aproveitar disso. Não é pouco para um Mephisto...

Em entrevista ao “New York Times”, Jagger deu o seu ponto de vista: “Houve uma janela nos 120 anos de indústria fonográfica em que os artistas ganharam rios de dinheiro com os discos. Mas foi uma janela muito pequena, digamos, de 15 anos, entre 1975 e 1990.” Ele bem sabe que, hoje em dia, só se é a maior banda de rock de todos enquanto é possível se manter no palco. Mesmo aos 70 anos.

— Não foi por acaso que Mick Jagger tomou a frente das finanças da banda desde o início dos anos 1970 — informa o cantor Paulo Ricardo, outro grande admirador, de velha data, do stone. — Esta é uma faceta da personalidade dele a que não estamos acostumados. Sexo e drogas, o.k., mas no horário comercial ele não está doidão, podem ter certeza. Jagger está preocupado com o próximo show, está contabilizando as vendas on-line de seu novo lançamento, o disco “Hyde Park Live”, número 1 no iTunes. Ele está malhando, está correndo. Ele está nos ensinando o caminho da longevidade e da fonte da juventude.

Freio nos excessos

Mick Jagger cumpriu todo o roteiro de um astro de rock. Em 1967, foi preso, junto com o parceiro e guitarrista Keith Richards, depois de uma batida da polícia, na casa de Keith, em busca de drogas. E, segundo uma biógrafa do vocalista, Chris Andersen, mais de 4.000 mulheres, muitas delas famosas, deitaram e rolaram com Mick. Drogas, sexo e rock’n’roll. Mas, com o tempo, o outro lado, conservador, também se fez evidente. Em 2003, o vocalista recebeu o título de Sir — e foi vítima da ironia ferina de Keith, o stone a quem ainda cabe ser rebelde e doido. Mais: há alguns dias, na festa antecipada por seus 70 anos, Mick foi embora por volta da 1h30m. Com idade avançada e trabalho pela frente, não dá pra abusar da saúde.

— Acho que em algum momento a técnica vocal dele, que também se aprimorou, se tornou um pouco virtuosa demais na interpretação, e isso ficou meio chato. Prefiro o Mick rasgado e sangrando — diz Chuck Hipolitho, guitarrista e vocalista do Vespas Mandarinas, uma das bandas mais destacadas da nova geração do rock brasileiro. — Mas, em “Doom and gloom”, a última música que eles lançaram (na compilação “GRRR!”, de 2012, comemorativa dos 50 anos de carreira), os Stones humilham qualquer banda de rock. É impressionante e bonito demais. Parece que ali Mick mostrou que ainda se lembra do que era e que, se quiser, volta a cantar daquele jeito.

— Mick Jagger não está interessado no passado — rebate Paulo Ricardo — Ele devolveu alguns milhões de libras quando viu que não tinha saco de escrever sua autobiografia (Em 1983, Jagger começou a redigir suas memórias, pelas quais teria recebido mais de 1 milhão de libras, mas disse ter achado a experiência tão “deprimente e tediosa” que achou melhor devolver o dinheiro à editora).

— E como ele consegue fazer aquilo no palco até hoje? — pergunta-se Chuck Hipholito. — Academia? Regime? Dinheiro? Parece que não é só isso. O Iggy Pop deve sentir inveja.

Com uma carreira solo (com a qual nunca obteve grande sucesso, apesar de não ter faltado empenho) deixada em suspenso, Jagger nunca diz “nunca mais” para os Rolling Stones. Perguntado recentemente se a banda se apresentaria de novo no Hyde Park (como fez nos últimos dias 6 e 13 — os shows que deram origem ao “Hyde Park Live”, o disco ao vivo de sucesso no iTunes), ele disse: “Neste ano, não... Não pensei sobre isso. E nem nos acenaram com essa possibilidade. Mas eu adoraria tocar de novo lá, foram grandes shows. Acabou que foi maravilhoso ver o sol se pondo no parque. Uma perfeita noite londrina.”

Sinceridade ou uma grande jogada desse mestre da mídia que, como lembra Paulo Ricardo, costumava dizer “que não se importava com o que diziam dele na página 97, contanto que sua foto estivesse na capa”?

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