TEMPO DE VIDA MAIOR EXIGE NOVAS POLITICAS PARA A VELHICE

No Japão, quem tem mais de 40 anos paga ‘imposto cuidador’, que custeia gastos do governo com idosos

No Brasil, centros de atenção são alternativa a asilos e mantêm vínculo familiar

RIO E SÃO PAULO - Dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) das Nações Unidas indicam que, daqui a 40 anos, a população idosa brasileira vai aumentar em 45 milhões de pessoas, das quais 15 milhões terão mais do que 80 anos. Atualmente, 2,8 milhões de brasileiros passaram da casa dos 80.

Como atender à essa população crescente é o tema da última reportagem da série “No Balanço das Horas”. No Japão, onde a expectativa de vida é de 83,6 anos (no Brasil é de 73,7 anos), a solução foi a criação de um imposto. A partir dos 40 anos, todo cidadão paga o “imposto cuidador”. Com essa arrecadação, o governo financia os custos para o atendimento do idoso no futuro. De acordo com a diretora emérita de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, a socióloga Helena Hirata, a partir dos 40 anos, é descontado mensalmente do salário do residente, seja ele japonês ou estrangeiro, cerca de 40 euros, variável de acordo com o salário:

— A partir dos 65 anos, o idoso tem a possibilidade que o governo pague 90% todas as suas despesas com saúde, acomodação em instituição de longa permanência, enfermeiros, médicos, ambulância, cuidador. É uma espécie de seguro administrado pelo estado. Quando a pessoa precisa de auxílio, basta procurar postos municipais e a sua situação será avaliada — afirma Helena, que estudou a questão no Japão, na França e no Brasil.

Na França, há o programa chamado de Alocação Personalizada de Autonomia. Mas, segundo Helena, é uma política mais tímida do que a do Japão. Qualquer pessoa com 60 anos ou mais pode receber o benefício, cujo valor varia de acordo com grau de dependência e da renda.

Em São Paulo, existem centros de convivência. O problema é que, para frequentá-los, é preciso que o idoso vá sozinho.

— Sozinho, o idoso esquece de tomar remédios, não se alimenta direito. E há sempre o risco das quedas dentro de casa — diz Yolanda Nunes da Silva, gerente de proteção social da Prefeitura de Vinhedo, cidade paulista a 75km da capital.

Com a mais alta expectativa de vida da Região Metropolitana de Campinas, de 77,6 anos, Vinhedo oferece há quase dois anos o serviço Quero Vida, uma espécie de creche, onde são garantidos cuidados a idosos cujas famílias não têm condições de pagar um cuidador. A casa atende a 14 pessoas — três homens e 11 mulheres — em situação de semidependência.

Lazer ocupa 26% do dia

Todos os dias, uma van vai buscá-los em casa. As atividades incluem horta, artesanato, pintura, jogos e dança. Recebem alimentação adequada e acompanhamento seguindo as necessidades individuais.

— Voltar para casa, junto com a família, faz com que não se enfraqueça os vínculos familiares — diz a secretária municipal de Assistência Social, Claudineia Serafim.

Estudo feito por estudantes de terapia ocupacional na Universidade Federal de Minas Gerais mostrou que o lazer ocupa 26% do tempo do idoso. Mas a ocupação desse tempo é muito passiva.

— Eles gastam o tempo vendo TV, descansando, olhando os netos. O ideal seria ter algum exercício físico, como dança, caminhada. — afirma Luís Bevilaqua, que fez o trabalho com Tainã Fagundes.

O bancário aposentado Noel Sales, de 74 anos, pode ser encontrado diariamente na praça Serzerdelo Correa, em Copacabana, na Zona Sul do Rio, ao lado dos amigos de carteado. Ex-jogador profissional, não pode mais fazer as caminhadas em Copacabana nem jogar pelada com os amigos. As sequelas de um câncer o impediram de continuar o esporte. Mas ele prefere passar mais tempo na rua:

— Aqui (na praça) não vejo o tempo passar.

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