CRIMES COMETIDOS POR IDOSOS DISPARAM NO JAPÃO

Pobreza e isolamento social estimulam
delitos entre população acima de 65 anos

TÓQUIO - O Japão tem um dos menores índices de criminalidade do mundo - algo que se percebe facilmente nas ruas de Tóquio, onde é possível andar até de madrugada sem susto. Nos últimos dez anos, as ocorrências criminais, que já eram baixas, caíram 17%. Um índice, no entanto, vem subindo, revelando uma face sombria da disciplinada sociedade japonesa. Os crimes cometidos por pessoas acima dos 65 anos dispararam. Segundo o Ministério da Justiça, 8,8% dos acusados presos em 2012 estavam nessa faixa etária. Há uma década, o percentual não passava de 3,6%.

A população japonesa é uma das mais velhas do planeta (23% têm 65 anos ou mais), mas o aumento da criminalidade entre idosos é proporcionalmente maior que o envelhecimento populacional. A maior parte dos delitos não é violenta; furtos correspondem à mais da metade das condenações. Ainda assim são números que surpreendem as autoridades. A maioria dos produtos furtados em lojas no Japão - crime, em geral, relacionado a delinquentes juvenis - é levada por pessoas que já passaram da idade da aposentadoria. O problema não envolve apenas homens. A delinquência também cresce entre mulheres idosas.

A estagnação econômica dos últimos anos é a causa mais evidente do problema. A polícia reconhece, porém, que há um outro fato levando os mais velhos ao crime: o isolamento social. Embora não sofra com altos índices de desemprego, como alguns países europeus, o Japão passa por mudanças sociais e econômicas dolorosas, que acabaram com a certeza dos empregos vitalícios, aumentaram os níveis de pobreza e modificaram a estrutura familiar tradicional. As famílias estão encolhendo e a expectativa de vida, crescendo. Os idosos vivem cada vez mais sozinhos, sem contato com parentes ou mesmo com vizinhos, segundo uma série de pesquisas recentes. Pequenos roubos e furtos são, em muitos casos, um pedido de socorro de quem precisa de cuidados e atenção.

- Para entender o fenômeno e buscar saídas é preciso realizar estudos mais detalhados. Mas ainda não há um debate intenso na sociedade. Os japoneses, assim como outros povos asiáticos, seguem os preceitos confucionistas. Tradicionalmente, os mais velhos são figuras respeitáveis. Falar sobre a criminalidade entre eles é um assunto incômodo para os japoneses - explica Hiroyuki Murata, professor da Universidade de Tohoku e especialista em envelhecimento populacional.

Murata acredita que quem se vê sem trabalho, família e responsabilidades, perde sua identidade social. São casos como o de Fumyo Kageyama. Depois de quatro décadas trabalhando honestamente na construção civil, ele se aposentou. Em 2008, aos 67 anos, roubou um passageiro alcoolizado no metrô. Réu primário, teve a pena suspensa. Dois meses depois, furtou um prato pronto de arroz com carne de porco num supermercado. Pegou dois anos de cadeia. Em 2011, já em liberdade, foi condenado pelo furto de um cachorro-quente. Sua história acabou nos jornais como exemplo de alguém que não sabia explicar seus atos e não se importava com a prisão.

Mais presos por furtos

O número de idosos japoneses envolvidos em crimes no ano passado foi de 48,5 mil (16,9%). Uma boa parte (28.673) foi presa por furto - 46% a mais que os jovens detidos pelo mesmo motivo. Em 2012, 2.2 mil mulheres foram presas. Cerca de 12% tinham 65 anos ou mais, um percentual dez vezes maior que o de vinte anos atrás.

Luiza Frischeisen, procuradora regional da República em São Paulo e membro do Conselho Nacional de Justiça, visitou um presídio feminino no Japão durante um curso promovido pelo Unafei, o organismo da ONU que trata da prevenção ao crime e tratamento de delinquentes na Ásia e Extremo Oriente. Ela conta que a grande quantidade de detentas idosas - o que não é comum nos presídios brasileiros - chamou sua atenção.

- O sistema prisional no Japão reflete a disciplina da sociedade. O trabalho é obrigatório, mas a presença de idosos traz novos desafios, como tratamento médico, alimentação e formas de trabalho adequadas. Talvez seja necessário desenvolver uma política de assistência específica para esses casos - diz.

Fonte: O GLOBO