ASILOS DE LUXO

Com mensalidades de até R$18.500 e serviços e atividades de hotel, o Residencial Santa Catarina serve como moradia para idosos


Imagine uma rotina composta por atividades como aula de artesanato, musicoterapia, hidroginástica, sessões de cinema e pelo menos quatro refeições – servidas por garçons bem treinados. Parece o cotidiano de um hotel cinco estrelas ou, até mesmo, um SPA de primeira linha, mas, na verdade, este é apenas o dia a dia do Residencial Santa Catarina, tido como “o primeiro flat planejado para a terceira idade”.

Localizado no número 98 da Rua Leôncio de Carvalho, travessa da Avenida Paulista, o local oferece apartamentos para pessoas acima dos 60 anos.

Todo o luxo é refletido por uma cara mensalidade (R$9.500 por mês, mais os gastos extras), que inclui, de acordo com a supervisora de comunicação do local, Márcia Bonilha, a moradia em um imóvel equipado com sala, copa, quarto e banheiro, quatro refeições diárias, acompanhamento nutricional, enfermagem e atividades variadas para ocupar as tardes. Consultas com a psicóloga e excursões para pontos fora do prédio (como o Aquário de São Paulo e a pizzaria Castelões) são pagos à parte. Quem escolhe ficar nos seus aposentos, no entanto, pode assistir a um filme por dia no cinema ali existente, jogar cartas nas mesas espalhadas pelo térreo ou simplesmente descansar na ampla área externa, com direito a orquidário e viveiro repleto de pássaros.

Irene Menram é uma viúva aposentada de 74 anos que vive essa rotina desde dezembro de 2010. Para ela, o Residencial Santa Catarina foi uma salvação. “Sou viúva, estou doente e não conseguia arrumar uma empregada. Cuidar da minha casa virou um fardo para mim, estava me tirando qualidade de vida. Desde que vim para cá, me sinto em um hotel, com todas as mordomias a que tenho direito.” A viúva não está sozinha. Há fila de espera para conseguir um apartamento no flat, apesar da alta mensalidade. “Este é um tipo de moradia quase inexistente no Brasil. Não somos um asilo, onde os idosos ficam jogados em um canto, mas, sim, uma espécie de hotel mesmo, onde eles têm uma convivência saudável com outras pessoas, além de fazerem atividades e de serem servidos o tempo inteiro”, afirma Carla Sobrinho, 34 anos, que trabalha como arrumadeira no Residencial.

A experiência no local é retratada pela aposentada Marinês Rodrigues, de 90 anos, que mora no Residencial Santa Catarina há pelo menos cinco anos. Segundo ela, a vida no novo lar trouxe de volta sua vida social: “Todas as noites, um grupo se reúne no térreo e fica conversando, jogando baralho. Temos ceia de Natal, de Páscoa, baile de Carnaval. Este lugar me faz sentir acolhida numa idade em que poderia estar abandonada e solitária”, desabafa. Irene complementa: “Meus exames melhoraram muito desde que me mudei para cá. Não tenho mais que me preocupar com nada, há uma arrumadeira para limpar meu quarto, diversos tipos de comida nos restaurantes, é um verdadeiro hotel”.

Um dos objetivos do Residencial é, justamente, melhorar o bem-estar dos idosos, como destaca Carla: “A pessoa sente que sua vida está de volta, vê que mesmo na terceira idade é possível aproveitar e fazer amigos. Já vi muita gente entrar aqui deprimida e voltar a sorrir aos poucos”.

A tese de Carla é verificada em momentos como o almoço no restaurante, quando os moradores se reúnem em grupos, conversam sobre assuntos variados, recebem visitas dos parentes e são servidos pelos garçons, e, eventualmente, por enfermeiros. O Residencial Santa Catarina pode, assim, ser um novo modelo de moradia para idosos que, tendo disponibilidade financeira, encontram em um novo abrigo uma forma de garantir o bem-estar e a comodidade tão necessárias às pessoas desta faixa etária.

É como viver, dia após dia, num hotel seis estrelas. Para vovôs e vovós de aposentadorias polpudas, a cidade oferece ao menos três residenciais de luxo para a terceira idade, cobrando mensalidades que variam entre R$ 2.500 e R$ 18.400. Nos condomínios de idosos classe A, os quartos são adaptados, há atendimento médico 24 horas, oficinas de artesanato, tricô e inglês e tours frequentes para cinemas, parques e cidades turísticas.

"Café da manhã e almoço finos, licorzinho com os amigos depois do jantar, eventos diferentes todo dia. Consigo unir o descanso e a diversão necessários para aproveitar esse momento da vida", resume o médico aposentado Nelson Daher, de 90 anos, morador desde 2004 do Residencial Santa Catarina, a 10 minutos da Avenida Paulista.

Para viver em um dos 113 apartamentos do condomínio, o morador tem de desembolsar, no mínimo, R$ 8.700 no pacote mais barato. "Hoje, vou ao teatro mais do que nunca. Vivo cheio de amigos e em ótimos cuidados médicos", conta Daher, em uma tarde de quarta-feira, após uma sessão de cinema.
"É uma fase completamente diferente da vida. Sinto que ainda tenho muito o que aprender", diz Nardina Belfiore, de 84 anos, há um ano e meio vivendo no Santa Catarina. Para não sentir falta de casa, decorou o apartamento no condomínio com os móveis da casa da família em Itu, no interior. "Sinto-me uma pessoa jovem. Pratico ioga, saio com as outras meninas, leio muito. Também recebo minha família para almoços de domingo."

Atualmente, o Santa Catarina tem 80% dos apartamentos ocupados - taxa semelhante à de outros condomínios para a terceira idade, como o Lar Recanto Feliz (com lago e igreja), no Butantã, e o Lar Sant"Ana, no Alto de Pinheiros, ambos na zona oeste, usado como clube, com diária na faixa dos R$ 70.





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