ATLETA MASTERS MOSTRAM QUE TERCEIRA IDADE É A MELHOR HORA PARA PRATICAR ESPORTES

Na pista, praia, piscina ou no tatame, 
eles têm um objetivo comum: garantir uma velhice mais saudável

Não importa se por paixão, hábito, preocupação estética ou saúde. No caso dos atletas masters, administrar casa e trabalho, cuidar de filhos e, porventura, de netos, são partes tão importantes da rotina quanto praticar esportes. O GLOBO-Barra conversou com seis deles. Todos dizem que envelhecer com qualidade de vida é uma prioridade, e fonte de motivação para as atividades.

No Rio desde 1997, a gaúcha Elaine Romero, de 66 anos, só não se desloca da Barra, onde mora, para a Lagoa todos os dias, para nadar no seu clube, o Flamengo, por problemas de saúde.

— Nado três vezes na semana, por causa do desgaste. Estou com ruptura parcial de ombro esquerdo e bursite crônica na coxa direita. Tenho que fazer muito reforço e fisioterapia — conta.

Professora universitária aposentada e diretora da Associação Brasileira Masters de Natação (ABMN), ela conta que, mesmo antes, procurava adaptar a rotina acadêmica à sua agenda esportiva.

— Aprendi a nadar em Porto Alegre, aos 13 anos, mas nunca fui uma atleta de expressão. No Espírito Santo, onde dei aulas, já competia, mas não tinha adversários (à altura). Depois de ficar em sexto lugar na primeira disputa no Rio, tracei uma meta: vou treinar e vou para o pódio. Agora, me dedico à prática esportiva, e edito o jornalzinho da ABMN — diz ela, que, entre muitos títulos, é campeã brasileira na modalidade nado de costas, tem mais de um título no nado de peito e já venceu seis provas sul-americanas.

Elaine faz, hoje, nado medley (borboleta, costas, peito e crawl). Sua rotina começa às 8h, com reforço e aquecimento, antes da natação:

— Sou uma atleta disciplinada. Acordo cedo, para chegar ao treino a tempo. E sigo o que a equipe médica indicou, que é não fazer treinos de muita intensidade. Mesmo assim, tenho conseguido ganhar minhas medalhas.

Este ano, a nadadora já conquistou 20 delas. Agora, prepara-se para a XXI Copa Brasil, em Foz do Iguaçu, em setembro; e para o Sul-Americano, em outubro:

— Meu dia tem sol a partir da hora em que caio na água, faça chuva ou esteja nublado. Se eu nado, o dia fica melhor.

Também morador da Barra, Rogério Daudt, de 60 anos, divide o dia entre o esporte e o trabalho. Executivo da área financeira, ele faz parte de um grupo de 300 ciclistas que treina na região diariamente, a partir das 5h, na Avenida das Américas.

— Sempre gostei de esporte. Aos 12 anos, eu nadava e competia. Depois, a profissão leva você a ter menos tempo. Na década de 1990, comecei a fazer ciclismo e nunca mais parei. E o Rio é lindo, tem mar e montanha, o que ajuda — diz ele, que gosta de percorrer locais como a Grajaú-Jacarepaguá e as Paineiras.

MUSCULAÇÃO TAMBÉM É FUNDAMENTAL

O ciclista Rogério Daudt rompeu o menisco há 30 anos, e só conseguiu solucionar o problema combinando bicicleta com musculação.

— O médico me deu duas opções: ou eu faria uma cirurgia ou um fortalecimento. Escolhi a segunda opção. O complemento da musculação é fundamental para qualquer esporte com mais intensidade. Academia enche um pouco, mas é muito importante. Como em qualquer esporte, você tem que reforçar os músculos que usa mais. Hoje em dia, corro, pedalo e não tenho nenhuma lesão.

Daudt participa de até três eventos de ciclismo por ano, há uma década, e não pretende parar.

— Meu objetivo é envelhecer com saúde, chegar aos 100 anos pedalando cem quilômetros, como meu ídolo, Robert Marchand — planeja.

Quem também aproveita as pistas para se exercitar é a designer de megahair Nilcéia Rocha, de 54 anos, que começou a correr por problemas de saúde, há menos de um ano, e já participou de duas minimaratonas.

— Nunca fui chegada a academia; há dois anos, eu não fazia nada. Minhas filhas me perturbavam. Pela idade e por uma série de motivos, como pressão, colesterol e glicose altos e atropelos emocionais, acabei me matriculando em uma academia. Comecei com musculação, alongamento e pilates, porque tenho cristais nas articulações. Depois, veio a corrida — conta ela.

Moradora da Freguesia há 27 anos, Nilcéia corre de três a quatro quilômetros na orla da Barra, duas vezes na semana, com auxílio de um personal trainer, e outras duas, aos domingos e às segundas, em companhia da filha.

— Não intensifico mais porque tenho duas fraturas na perna esquerda, pinos no braço e afundamento de calcâneo no pé esquerdo. Fiz três cirurgias em um ano — explica Nilcéia.

Com a mudança no estilo de vida, no entanto, ela garante que é capaz de fazer coisas que o médico disse que não poderia mais.

— Fazer exercícios, hoje, só melhora meu dia a dia: em termos de saúde, hábitos diários, resistência. E me dá muito mais ânimo; chego para trabalhar mais disposta e alegre. A corrida melhorou minha vida em 100%. Antes, subia uma escada e ficava cansada. Depois que comecei a correr, me arrependi de não ter feito isso antes.

Enquanto isso, ali na areia, a professora de Educação Física aposentada Aida Lorite Motta aproveita seus 69 anos treinando vôlei, em frente ao Posto 5, na Barra, depois de longos anos de sedentarismo.

— Comecei a jogar na escola. Quando entrei para a faculdade, competia no atletismo, e ganhei mais de cem medalhas. Depois, me casei e parei, para criar meus três filhos. Quando eles cresceram, voltei ao vôlei, aos 59 anos — relata.

Os treinos na praia são aos finais de semana, com o grupo da Escolinha Bernard. Lá, a atleta se condiciona para participar de campeonatos nacionais e mundiais. Este ano, já foram quatro vitórias.

Aida também joga vôlei de quadra e faz musculação, ao lado do filho, três vezes por semana:

— Estou nesta rotina desde que me aposentei, há oito anos. Adoro jogar. Dizem que sou a mais “fominha” de vôlei. O esporte tira da depressão. Você faz muitas amizades, e não precisa ficar tomando remédios.

José Roberto Nascimento prefere o mar. Aos 57 anos, ele se orgulha de não passar um dia sem pegar onda.

— Surfo desde criança; e na época era com prancha de isopor — relembra o professor de surfe e stand up, que, além de ainda competir, dá aulas todos os dias em frente ao Posto 4, na Barra, na escolinha Rico Surf. — Surfista é psicopata. Só faço isso, só leio revista de surfe. Não consigo parar, é um estilo de vida. Se eu não pego uma onda, acho que não estou bem.

Para que a pessoa seja bem-sucedida no esporte, Nascimento chama a atenção para a necessidade de disciplina e preparação física:

— O que o surfe impõe é você estar sempre em forma. Se não estiver, não consegue pegar onda. É um esporte de alta intensidade. Tem que ter condição física.

Fora da água, o atleta faz ioga, que, segundo ele, é parte do aquecimento e do alongamento para o surfe, ao tratar a parte aeróbica, a respiração e o controle.

No caso do psicólogo e escritor Darcio Valente, de 62 anos, morador de São Conrado, o judô é a paixão.

— Eu tinha 12 anos e jogava futebol num lugar que chamavam de campo de soldado. Um dia, vi o pessoal praticando judô e fiquei louco com aquilo. Pedi meu ao pai um quimono, e ele trouxe no dia seguinte — recorda.

Valente participou de competições até um ano atrás, parou por um problema no pulmão, mas tem planos de voltar ao pódio em 2015. Agora, faz judô duas vezes na semana, no Instituto Reação.

— Não consigo fazer mais do que isso; o corpo não aguenta. O desgaste é muito. Para ajudar, faço também musculação, elástico, bicicleta e tai chi chuan.

Como os demais, o atleta relaciona diversos benefícios que os exercícios proporcionam às pessoas:

— Sua saúde é incomparavelmente melhor do que a de quem não faz nada. Não tenho pressão alta, nem problema cardíaco. Você regula a atividade segundo a sua disposição, mas, independentemente da idade, a satisfação pessoal é a mesma. Nosso corpo funciona em harmonia com a mente.

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