COMO É A VIDA EM UM ASILO "CLASSE A"

No Lar Sant'ana, em São Paulo, há aulas de ginástica e musculação voltadas para o idoso
A rotina dos 109 idosos que moram no Lar Sant'ana, em SP, cuja mensalidade é de R$ 10 mil e inclui alongamento e pilates

Quando Ana Maria Vanderlinder, de 71 anos, contou para a irmã e melhor amiga que ia morar em um asilo, ela recebeu como resposta uma cara feia. A reação deixou a dona de casa extremamente magoada.

Não era possível. Como assim sua maior confidente não a apoiaria desta vez? Resolveu apelar para o diálogo, o pai das relações, e questionou a irmã. “Eu estou é com inveja, sua boba. Também queria ir”, respondeu a irmã com uma gargalhada.


Desfeito o desentendido, no dia 18 de março deste ano, Ana Maria se mudou para o quarto de 30 metros quadrados no Lar Sant'ana, um dos asilos classe A da capital paulista. Antes disso, ela já frequentava o local três vezes por semana para aulas de pilates e ginástica. Viúva há 17 anos, recentemente teve cálculo renal e precisou operar os rins. “Aqui é como morar num flat. Além do mais, eu tenho todos os serviços na minha mão. Vi a preocupação na cara das minhas três filhas quando fui operada e não quero dar trabalho para ninguém”, diz toda faceira.

Ana Maria Vanderlinder, de 71 anos,
decidiu mudar para o asilo mesmo cheia de saúde
Bonitona, certamente a musa do asilo já foi reparada por Francisco Serra Rocasalbas, de 94 anos e há um ano e meio morando no Lar. O catalão é galanteador e de acordo com funcionários está de paquera com duas mulheres mais ou menos da idade dele, uma interna e outra que vai ao local para fazer aula de alongamento. Ele, no entanto, não assume nem revela como administra a situação. A arte do silêncio é secular, mais antiga que ele, e malandro que é malandro fala pouco.

Francisco desconversa, dá uma pausa, um riso de canto de boca e conta que veio morar no Brasil fugido da Guerra Civil Espanhola, que ocorreu entre 1936 e 1939. Tinha acabado de se casar com a mãe de suas três filhas, nas ilhas Canárias. Conhecia o cônsul do Brasil na Espanha que indicou o País como refúgio. Músico, tocador de violino e trompete, fez muito dinheiro participando de orquestras pelo Brasil a fora. Certamente também viveu muitos romances.

Atualmente, seu Francisco integra o Grupo de Homens do Lar. Com a mediação de psicólogos, a espécie de confraria tem conversas que vão muito além do futebol, mulher e cerveja. Eles conversam também sobre luto, finitude, casamento, adultério, amor, velhice e o que mais for pedido pelos 16 homens que integram o grupo. É bom lembrar que asilos contam com uma população maioritariamente feminina, elas vivem mais que os homens. “Outro dia estávamos conversando sobre casamento e surgiu o papo de quem nunca teve uma amante”, ri o psicólogo Guilherme Afonso, de 23 anos, e que media a conversa dos velhinhos.

Francisco Serra Rocasalbas, de 94 anos, prefere viver no asilo
a aturar a marcação cerrada das filhas que ele visita toda a semana.
O catalão é galanteador e, dizem, está namorando
O Grupo de Homens é um sucesso e ajuda os idosos na adaptação a nova vida e também a como aprender a viver a velhice. “Não derramei uma lágrima quando os meus pais morreram, mas outro dia soube casualmente que o meu neto Daniel tinha morrido já há um ano. Levei um choque. Sentia falta dele e perguntei. Foi quando me contaram. Chorei três dias inteiros”, lamenta o catalão.

Viúvo há muitos anos, vai para a casa das filhas duas vezes por semana. “Se eu morasse com elas, elas iam torrar a minha paciência”, disse com um sorriso.

No Lar ele convive com outros 109 moradores. São 120 suítes, sendo que 10 deles estão em reforma. O cuidado com os hóspedes fica por conta dos 220 funcionários (o dobro do número de residentes). Cada hóspede paga por mês no mínimo R$ 10.400, com todos os serviços incluídos, inclusive academia, aula de pilates e alongamento. Existem três médicos de plantão, mas o acompanhamento médico é feito fora do Lar. Todos os hóspedes tem plano de saúde. De acordo com os coordenadores do asilo, normalmente, a conta é paga pelos próprios hóspedes que costumam ser os arrimos de família.

A cidade de São Paulo conta com quase uma dezena de asilos classe A. Para quem não tem renda suficiente, existem as instituições de longa permanência para idosos. Ao todo são oito ILPIs, que atendem prioritariamente idosos que não dispõe de condições para permanecer na família por estarem em situações de negligência, sofrendo abuso, maus tratos e outras formas de violência, ou que se encontrem com vínculos familiares fragilizados, rompidos, ou com perda da capacidade de auto cuidado. Na cidade inteira são apenas 300 vagas nestas instituições. Existem também 680 vagas em seis Centros de Acolhida especial para Idosos em situação de rua. Segundo o censo do IBGE a população de idosos na cidade era de 1,3 milhão.

De acordo com a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social a verba destinada para as ILPIs foi de R$ 748.053,46, em março de 2014, menos do que pagam os idosos do Lar Santana, mais de R$ 1.144.000,00 no total.

No Lar Sant’Ana, além das seis refeições diárias, atividades voltadas para a terceira idade, há ainda 220 funcionários para os 110 hóspedes. Mas nem tudo é unanimidade por ali. Eu sinto muita falta da minha casa e me sinto sozinha. Tem muita gente aqui, mas eu me sinto só”, confessa uma mulher de uns 70 anos, que não quis revelar o nome. “Eu sinto falta do meu apartamento, das minhas coisas, sabe? Estou aqui há apenas um mês”, continua com os olhos cheios de lágrima.

Ás vésperas da Páscoa, ela contava estará ansiosa, pois ainda não tinha recebido nenhum convite, de nenhuma das três filhas para comemorar o dia santo. “Ah, perguntar para elas não tem graça. Eu quero ser convidada”, diz enquanto recebe um medicamento e um beijinho de uma das funcionárias. “Ainda bem que eu tenho esta nova amiguinha”, diz enquanto se levanta para ir em direção ao refeitório jantar uma sopa.

De acordo com a psicóloga Cristiane Felipe, gestora da instituição, a adaptação costuma ser complicada para alguns. “Toda perda causa um luto e é preciso viver o luto de toda uma história. Muitos sentem falta das lembranças que a casa trazia. Outros sentem falta da biblioteca enorme que cultivaram por anos. Mas o que pega mesmo é quando começam a perder a autonomia ou quando ficam com medo que os filhos não votem para visitá-los”, diz. Ela conta que em alguns casos a família quer mais que o idoso vá para o Lar. “Esses passam uma semana ou 15 dias aqui. A gente não pode ter ninguém aqui que não queira estar. Isso é lei”, diz.

Vera Costa Monteiro da Gama, de 93 anos, afirma que não é de sentir saudades,
mas fala emocionada da falta das amigas que já morreram
Na sala de TV, velhinhos arrumadíssimos se acomodam em sofás para ver a novela das seis. Num canto, um homem conversa de mãos dadas com mãe, uma senhora baixinha de brincos de pérola e cabelos brancos arrumados para trás. “A Carolina está pensando em ir estudar fora”, diz o homem em tom de fofoca. Do outro lado do jardim de inverno, um grupo assiste à missa e outro, chega para tomar um cafezinho da tarde.

Vera Costa Monteiro da Gama sempre controlou com mãos de ferro a casa em que morou. A mulher de 93 anos sempre administrou casa, os cuidados com filhos e marido, além das duas fazendas de café e leite em Avaré, no interior de São Paulo. Mas em agosto do ano passado ela caiu na cozinha enquanto preparava um café. Quebrou a tíbia e precisou operar. Também brigou com as empregadas e decidiu se mudar para lá. No dia 16 de dezembro era a mais nova moradora do asilo.

Ela é resoluta. A ceia de Natal foi feita no dia 12 de dezembro. Todos os anos ela antecipa a confraternização e no ano passado não foi diferente. “Eu tenho três filhos homens. Normalmente, eles passam com a família das esposas. Antecipo a ceia há muitos anos e sempre deu certo”, sorri.

Ela também não lamenta ter se desfeito dos móveis e da vida que levava no apartamento em Higienópolis. “Eu sou boa de fazer mudança e já está quase tudo pronto”, diz. O sistema usado foi o mesmo sortei que criou quando se desfez das peças das fazendas que morou durante toda a vida adulta. Cada filho recebe um número e cada peça importante ou móvel era sorteado. Assim era justo para todo mundo.

“Eu sou paulistana. Nasci na rua Araújo. Fui para o interior por causa da revolução de 24. Você sabe que lançaram umas bombas naquela época e atingiram a indústria de produtos químicos do meu pai. Um perigo, você já imaginou? Tinha éter, também produziam lança-perfume, mas naquela época ninguém usava como droga. Meu pai ficou apavorado, pegou mulher e filha e fomos morar no interior”, conta.

Vera sente falta de dirigir seu carro e também das amigas, que já morreram. “Todas já morreram. Para isso, não tem jeito. Já para o carro, é só aguardar eu largar estas muletas”, diz.

Elegante até mesmo com as duas muletas, suas “inseparáveis amigas temporárias”, dona Vera agora está querendo arranjar um jeito de colocar um cavalete e pintar a paisagem da janela de seu novo quarto. “Adoro pintar. Outro dia vi que tem passarinhos por aqui”, disse. Os próximos planos são visitar a neta que mora nos estados unidos para conhecer a bisneta Gabriela, de um ano e quatro meses. Por enquanto, só viu a menina por Skype.