FILME UP, DA PIXAR (PARA TODAS AS IDADES)

A PSICANÁLISE DO CONTO DE FADAS NO RESPEITO AO IDOSO, COM COMPANHEIRISMO E AVENTURA



“Up” da Pixar. Psicanálise dos contos de fada. Respeito ao idoso, solidão, companheirismo e a busca da nossa própria aventura. Tente não se emocionar.

Só podia ser obra do estúdio de um dos maiores gênios da atualidade: Steve Jobs. A revolucionária Pixar trouxe o mais bem sucedido desenho das telonas: Toy Story, isso sem mencionar as inúmeras animações e blockbusters como Monstros SA, Wall-E e outros. Conseguiu desde então um feito muito interessante: fazer do desenho também uma diversão para o adulto que acompanha a criança.

‘UP’ é, sem dúvida alguma, o meu favorito. O filme é divertidíssimo, mas o que mais chama a atenção é o enredo. Carl Fredricksen é um vendedor de balões completamente apaixonado pela esposa: a doce Ellie. Os dois formam um belo casal que, infelizmente não pode ter filhos. Ellie sempre teve uma queda por aventuras e sempre quis ser exploradora, mas acabou sendo apenas um guia em um parque de diversões.

Ellie acaba falecendo de câncer, deixando o coração do senhor Fredricksen amargo e rabugento. A casa deles está ameaçada pela verticalização dos entornos e Carl sofre pressão para abandonar sua casa. Um incidente faz com que um juiz decida que Carl deva ir a um asilo.

Decide ele então encher milhares de balões e levar a própria casa para uma floresta na América do Sul onde Ellie sonhava em morar: o paraíso das cachoeiras. Um escoteiro de 8 anos acaba ficando na sua varanda acidentalmente e a aventura começa.


A sinopse é essa, mas o que chama a atenção não é só a divertida história, mas a emocionante história e os temas que são abordados e da forma como são. O filme lembra muito das técnicas usadas em contos de fada e histórias para crianças como por exemplo a dos três porquinhos, na qual, segundo o livro “A Psicanálise dos Contos de Fada” de Bruno Bettelheim, editora Paz e Terra,2002, há uma lição da medida do princípio do prazer Vs. o princípio da realidade. Segundo o autor, os três porquinhos são, na verdade, a mesma pessoa em três etapas diferentes da vida. O autor, brilhantemente analisa:

“As figuras e situações dos contos de fadas também personificam e ilustram conflitos internos, mas sempre sugerem sutilmente como estes conflitos podem ser solucionados e quais os próximos passos a serem dados na direção de uma humanidade mais elevada. (…) Longe de fazer solicitações, o conto de fadas reassegura, dá esperança para o futuro, e oferece a promessa de um final feliz. Por esta razão, Lewis Carrol chamou-o um ‘presente de amor’ – um termo que dificilmente se aplicará a um mito.” Ainda cita um belíssimo poema de Lewis Carrol: Criança da pura fronte sem névoas E sonhadores olhos de espanto! Embora o tempo seja veloz E meia vida separa você e eu Seu adorável sorriso bem certo saudará O presente de amor de um conto de fadas (C.L.Dodgson (Lewis Carroll), em Através do espelho

Trago agora a razão desse post, essa espetacular cena que conta uma belíssima história de amor e de respeito, coisa rara hoje em dia, entre duas pessoas que se amam e se completam, nas pequenas coisas do dia-a-dia. Desde a limpeza da casa feita a dois a grandes sonhos e planos que muitas vezes não são realizados por conta do cotidiano. Mas no final, será que valeu a pena? Tente não se emocionar.
Nesse sentido, filme Up é interessantíssimo de ser analisado: Carl fica sozinho pois sua esposa morre de câncer e acaba vivendo uma vida meio sem sentido, que o deixa amargo e desgostoso com todo o resto, deixando-o comfama de rabugento. Em um livro que sua falecida esposa elaborou, estilo scrap book, há uma parte que ele só lê quando chega no paraíso das cachoeiras. Porém, o que o velhinho Carl não sabia é que a grande aventura de sua esposa Ellie foi tê-lo conhecido e se casado com ele, vivendo grandes aventuras juntos. É uma das cenas mais tocantes do filme. Foi ganhadora de 2 oscars em 2010. Realmente emocionante. “Obrigado pela aventura. Agora vá e tenha uma nova.” Lindo trecho que, na linha do livro de Bettelheim, reassegura e mostra um outro aspecto da morte: o de deixar as pessoas partirem, e dá um conforto de que o término não precisa ser tão doloroso quanto a gente pensa. Enfim, depois de ter chegado no paraíso das cachoeiras e de ter visto que a maior aventura de sua falecida esposa foi na verdade tê-lo conhecido, o filme dá esse tom de que às vezes as maiores aventuras da vida não são aquelas que você sai procurando. Dá também aquela ideia de que a felicidade está em coisas bem mais simples do que muitas vezes imaginamos.

O escoteiro Russel traz o exemplo de respeito ao idoso, o dolorido fato de seus pais serem ausentes, mas se mostra como um forte menino de 8 anos. Ele consegue amolecer o coração do velho Carl, que volta a sorrir e a fazer pequenas coisas prazerosas que parecem não ter importância, mas que na verdade acabam fazendo toda a diferença.

Agora, o vídeo mais emocionante do filme, ganhador de oscars, belíssimo: