ZUENIR VENTURA, VERISSIMO E ZIRALDO INSIPIRAM MUSICAL SOBRE A "VELHICE"

‘BarbarIdade’ estreia nesta quinta-feira no teatro Oi Casa Grande

No paraíso tem muitas escadas rolantes. Assim, não é preciso ter medo de subir, medo de cair. A escada normal, no fim das contas, é inimiga do velho — junto às temíveis pedras portuguesas, é claro. Se um velho tivesse escrito a Bíblia, constaria entre os mandamentos: com pedras portuguesas, não entrarás no reino dos céus. Só entrarão netos, amigos, corações que não se recusem a bater. Porque envelhecer é bom, e do alto dos 80 anos a vista é bonita. Só que alguém poderia desaparecer com as malditas escadas. Ou mandá-las para o inferno.

Como tal mundo não é possível, Zuenir Ventura, Luis Fernando Veríssimo e Ziraldo — com 83, 78 e 82 anos, respectivamente — se esforçam para se divertir por aqui mesmo. Os três amigos dizem que envelheceram sem perder a ternura. E o bom humor os elevou a musos do musical sobre a velhice “BarbarIdade”, escrito por por Rodrigo Nogueira, que estreia nesta quinta-feira, com um orçamento de R$ 10 milhões. José Lavigne assina a direção, mas se desligou do espetáculo há uma semana. O diretor informou que seu afastamento foi por “problemas pessoais”.

— A ideia é mostrar que dá para envelhecer bem. Não mostrar a velhice como um oba-oba, uma coisa maravilhosa, claro, já que a alternativa à velhice é pior — diz Zuenir Ventura, colunista do GLOBO e o mais novo imortal da Academia Brasileira de Letras. — O Niemeyer dizia que a velhice era uma merda, mas levou 105 anos para sair dela.

“EU MANTENHO O MITO!”

O trio de amigos não escreveu o texto, mas inspira as histórias. Um dos personagens, por exemplo, admite na peça que já “brochou” — piada com uma famosa entrevista de Ziraldo a Ruy Castro, na revista “Playboy”, em 1980, na qual dizia nunca ter, digamos, falhado com uma mulher. Veredicto do cartunista: publique-se a lenda.

— Eu mantenho o mito! Vou desmentir? Só Deus sabe do coração humano. Depois que inventaram remédio para isso, parece que prolongou a vida do velho — diz Ziraldo. — Mas se a Pfizer (fabricante do Viagra) tivesse inventado um remédio para a libido, venderia muito mais. Minha experiência mostra que 80% dos meus contemporâneos perderam o tesão. Eu, não. Eu penso em sacanagem até hoje!

O problema de Verissimo é em outra modalidade de apetite — o gastronômico. Fã de pudim de laranja e outras iguarias, o escritor gaúcho, também colunista do GLOBO, está proibido de chegar perto de doces do tipo por conta do diabetes. O autor, que toma 21 pílulas por dia, não reclama: a neta, Lucinda, saracoteando pela casa compensa esse ônus da idade.

— (A morte) é a última coisa que eu quero que me aconteça! — diz o gaúcho. — O importante é manter o interesse que a gente tinha pela vida. Gostar de ler, ir ao cinema, manter a lucidez.

Amigos também implicam um com os outros. A relação de Ziraldo e Zuenir — cheia de rusgas e afeto — inspira dois personagens que vivem brigando. Para em seguida fazer as pazes, afinal, eles têm uma amizade que atravessou as décadas. Uma parceria que persistiu mesmo em horas difíceis: em 1968, logo depois de o Ato Institucional nº 5 ser decretado, os dois ficaram presos juntos no quartel do Regimento Marechal Caetano de Farias, da PM, no Centro do Rio.

— A gente brigou até na cadeia! — brinca Zuenir.

“VIVENDO NA PRORROGAÇÃO”

Embora ainda ativos, os três já deram sustos na família e nos fãs. Zuenir, que venceu um câncer na bexiga descoberto em 1988, foi parar no hospital horas depois de sua eleição para a ABL, em outubro passado. Felizmente, tratava-se apenas de uma queda de pressão. Já Ziraldo sofreu um “pequeno infarto” na Feira de Frankfurt, na Alemanha, em 2013 — o escritor e desenhista coleciona sete stents. E Verissimo ficou internado em estado grave por 24 dias, em 2012, por uma infecção.

— Eu quase me fui. Digo que estou vivendo na prorrogação — diz Verissimo. — Só fui saber que corri esse risco todo depois que saí do hospital.

E Ziraldo emenda:

— Faço tudo o que não se recomenda. Não ando, não corro, não faço nenhuma dessas veadagens. Como bacon. Cada década que você vive é um degrau. Passei dos 80 anos, e você não pode imaginar como a vista daqui é bonita.

O trio de amigos não gosta de eufemismos. Nada de melhor idade, terceira idade, idoso — eles são mesmo é velhos.

— Terceira idade é a puta que pariu! — brada Ziraldo.

Para Ziraldo, usar eufemismos é o mesmo que chamar marido de “esposo”, coisa que ele deplora. O cartunista até lembra uma vez em que foi visitar uma médium no subúrbio para receber uma carta psicografada supostamente escrita por Vilma Gontijo Alves Pinto, sua mulher já morta. Quando a paranormal foi ler a mensagem do além, ela começava com “Ziraldo, meu querido esposo...”. Assim que ouviu, ele disse:

— Vilma! Você enlouqueceu?!

Mas então ele acredita em vida após a morte?

— Eu, não. Para mim, morreu, acabou.

Os amigos comungam:

— Não acredito. E olha que eu ia ser padre, minha família é muito católica. Mas era uma vocação da minha mãe, não minha — diz Zuenir.

Verissimo endossa:

— Sou ateu praticante.

Como o espírito dos três — eterno ou não — segue jovial, os amigos só perceberam a velhice por meio de sinais externos. Além do esquecimento (nomes de pessoas que somem, frases que ficam pela metade), a forma como as pessoas lidam com o idoso é diferente.

— Um dia eu estava sentado e tinha uma moça me olhando. Comecei a achar que ela estava interessada. Ela se aproximou e disse: “Olha, você é a cara do meu avô. Só que mais velho!” — conta Zuenir.

Ziraldo, o mais falante, já emenda numa história:

— As moças chegam com um papo de “Como ele é fofo, posso passar a mão no seu cabelinho?”. Minha filha, eu não sou um ursinho! — diz ele. — Aprendam: quando uma moça fala com você, não crie fantasias. Ela está achando você só muito fofo.

Verissimo ia contar que percebeu que estava velho quando lhe ofereceram lugar no ônibus, mas foi interrompido por Ziraldo:

— Quer fazer um desfavor a um ser humano velho? Ceda o lugar a ele no ônibus. Não faça isso nunca! Não ceda! Principalmente para um homem.

“PERSONAL GERIATRA”

Mesmo Ziraldo comendo de tudo, os três se cuidam. Eles têm medo principalmente de perder a mente afiada.

— O Zuenir não brinca em serviço. Aonde ele vai, o geriatra vai atrás. Ele levou o geriatra até para a posse dele na ABL! — diz o cartunista.

— É mentira! — rebate Zuenir.

— Levou sim! Ele inventou o personal geriatra.

— É o Alexandre Calache, amigo meu, um teórico da gerontologia. E o Ziraldo acha que é meu geriatra — ri o imortal.

O assunto surgiu quando os três falavam do medo que sentem de ter Alzheimer. Mas Zuenir e Ziraldo fizeram um pacto:

— Não sei se ele já esqueceu. É algo que não dá para pedir para a família... — diz Zuenir.

— Eu vou desligar as máquinas dele, e ele, as minhas. Mas eu vou primeiro. Já estou com sete stents. E o Zuenir vai chamar a imprensa para assistir.

SERVIÇO

“BarbarIdade”

Onde: Teatro Oi Casa Grande — Av. Afrânio de Melo Franco, 290, Leblon (2511-0800)

Quando: De quinta até 14 de junho. Qui. a sáb., às 21h; dom., às 19h

Quanto: De R$ 60 a R$ 190

Classificação: Livre

http://oglobo.globo.com/cultura/teatro/zuenir-ventura-verissimo-ziraldo-inspiram-musical-sobre-velhice-15599278

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