ESTRELAS DA SÉRIE "OS EXPERIENTES", VETERANOS COMO BEATRIZ SEGALL, OTHON BASTOS E JUCA DE OLIVEIRA FALAM SOBRE ENVELHECER

Dirigida por Fernando Meirelles, atração em quatro episódios estreia sexta na Globo

O senhor com a expressão entristecida aqui ao lado é o advogado Napoleão Roberto, protagonista de um dos episódios de “Os experientes”, série que estreia sexta, dia 10, às 23h15, na Globo. Ele não lembra em nada seu intérprete, Juca de Oliveira. Com uma voz que transpira vivacidade, o ator, de 80 anos e 51 de carreira, afirma estar vivendo “os melhores anos da vida”.

— Essa é a parte mais gostosa, porque você compreende o que aconteceu. Claro que, ter determinados tipos de limitação não é muito agradável, mas, ao envelhecer, você perde algumas coisas e ganha outras: sabedoria, calma, capacidade de perdoar — lista o ator, que está escrevendo uma peça e há pouco encerrou a turnê do espetáculo “Rei Lear”, de Shakespeare, protagonizado por ele.

Com direção-geral de Fernando Meirelles e de seu filho, Quico Meirelles, “Os experientes” é uma parceria da Globo com a O2 Filmes, roteirizada por Antônio Prata e Márcio Alemão Delgado. A atração, em quatro episódios dissociados, protagonizados por atores veteranos, propõe um debate sobre envelhecer.

— A ideia original foi minha. Sou muito próximo dos meus avós e o tema sempre me fascinou e me tocou muito. Acho engraçado na TV brasileira haver poucas obras sobre pessoas da terceira idade, com pessoas da terceira idade e questões que as interessem — comenta Quico, de 25 anos.

Protagonista do primeiro episódio, “Assalto”, Beatriz Segall atesta a opinião de Quico. Do alto dos seus 88 anos, ela reflete como é, para uma atriz, envelhecer na TV no Brasil.

— Acho que faltam papéis. Aqui não se dá muita importância para os velhos, para o que eles fazem, para o que eles construíram. Isso é cultural na Europa. É preciso valorizar os velhos, eles viveram mais, sabem mais — defende.

A intenção da série, conta Fernando, é exatamente levantar essa questão.

— A pessoa mais velha às vezes é como se fosse invisível, é importante escutá-las.

Coprotagonista do último episódio, Joana Fomm concorda com o diretor:

— Eu tenho alguns amigos que estão esquecidos, acho que as pessoas não percebem que é possível fazer sucesso com a velhice.

ATRIZ QUE SABE O QUE QUER

Em “Assalto”, Beatriz vive Yolanda, uma das reféns de um ladrão de banco (João Cortês) que ajuda a polícia a resolver o caso. Conversando com o bandido, ela descobre que ele não é tão malvado quanto parece. Já ele acaba percebendo que Yolanda não é a velhinha indefesa que aparenta ser. Sua intérprete, conta Fernando, também está bem longe disso:

— Beatriz tem o jeito de quem sabe o que quer fazer, como quer fazer, quando quer fazer. Mas, ao mesmo tempo, é muito generosa. O João (o ator ruivo que ficou conhecido por fazer a propaganda de operadora de celular) só tinha feito teatro e comerciais antes de gravar a série. Ela foi muito atenciosa com ele, deu várias dicas.

O segundo episódio, “Atravessadores do samba”, tem como protagonistas o apresentador de TV Goulart de Andrade e os sambistas Wilson das Neves, Zé Maria e Germano Mathias. Na atração, eles formam um grupo de septuagenários que se apresenta em pequenos eventos e tenta recomeçar após a morte de um dos membros.

Ativo aos 82 anos, Goulart de Andrade, apresentador do programa “Vem comigo”, na TV Gazeta, diz que a morte, aliás, é algo que não o assusta.

— Vou até os 115 com certeza. Me considero seminovo. Se amassar o para-choque, vou no martelinho de ouro e conserto — brinca Goulart, emendando com seriedade: — Não tem ninguém que esteja esperando ser chamado. Queremos atuar no compromisso de dar exemplo. Essa série mostra que os seminovos têm pontos de perseverança. A gente quer continuar.

No episódio, com a participação de Jair Rodrigues (as gravações foram em 2013, e o cantor morreu em maio de 2014), a trupe de sambistas busca um novo integrante para o grupo.

— Um deles se suicida e o meu personagem (Oswaldo), que é o líder do grupo, abre um concurso para contratar um substituto. Pinta um cantor e uma gostosa (Celeste, interpretada pela cantora Bibba Chuqui). Acha que eu ia escolher o Jair Rodrigues? Claro que escolho a gostosa! Termino com ela e o personagem do Wilson (Mateus) na cama — diverte-se Goulart.

Baterista, cantor e compositor, Wilson das Neves, que já tinha feito uma participação no filme “Noel — O poeta da vila”, diz que ter atuado “para valer” aos 78 anos foi “uma experiência de vida”:

— Virei ator depois da validade quase vencida (risos). Aprendi olhando os outros fazendo. Os diretores (Fernando, Quico e Gisele Barroco) deixaram a gente muito à vontade, não forçaram a barra. Fui fazendo e eles foram gostando. Às vezes, eu perguntava para o Goulart se estava legal, e ele falava para eu parar de perguntar. Dizia: “Se você está aqui, é porque está fazendo direito”.

Para o “menino” Wilson, “saber envelhecer é uma arte":

— Vou fazer 79 anos em junho, não me preocupo. Sei que não tenho mais 18, mas não tenho 500 anos. Aprendi com a Bibi Ferreira (ativa aos 92 anos) que, enquanto tiver milho, a gente faz pipoca.

IMPROVISO NO SET

Fernando conta que harmonia e afinação não faltaram na gravação com os músicos, que tinham pouca ou nenhuma experiência em atuação.

— Fizemos um passo a passo com eles, contamos com um pouco de improviso, mas eles foram ótimos — elogia o diretor, que estende os cumprimentos aos demais atores da série: — É cada atorzão que da até medo (risos). São todos muito experientes, todos têm quatro vezes mais horas de set do que eu e meu filho juntos.

Quico, que já dirigiu um episódio da minissérie “Contos do Edgar” (2013), da FOX, e o premiado curta “A galinha que burlou o sistema” (2011), confessa ter sentido um frio na barriga ao dirigir atores tão tarimbados.

— Rolou um medinho diante desses caras, mas estava feliz de fazer parte daquilo. Não me senti intimidado, mas honrado.

Foi ele quem dirigiu “O primeiro dia”, terceiro episódio, o tal protagonizado por Juca de Oliveira, que faz Napoleão Roberto. Na trama, o advogado vai ao médico, doutor Pricolli (Lima Duarte), e descobre que tem uma doença terminal. Decide, então, reencontrar o filho, Luiz (Dan Stulbach), com quem tinha perdido contato.

— O Napoleão é uma pessoa sisuda, um tanto econômica em relação aos outros. Bem diferente de mim, que sou absolutamente expansivo. Ele tinha uma relação tensa com o filho, mas eles saem, têm uma conversa muito boa e recomeçam uma ligação profundamente afetiva, como se tivessem se perdoado — comenta Juca.

Othon Bastos dá vida ao advogado Del Bello, amigo de Napoleão Roberto que faz o inventário dele. O ator faz charme dizendo que não se lembrava bem da sinopse do episódio, por ele ter sido gravado há tanto tempo. Mas, aos 81 anos, demonstra que a memória está ótima:

— Na trama, sempre na época de colégio, pregávamos peças um no outro. Os anos passam, mas a brincadeira, a molecagem e a alegria de infância permanecem. Como o médico diz que ele tem poucos meses de vida, vou mudar o inventário dele pela enésima vez. Foi tudo feito com muito humor, alegria, coleguismo e carinho — declara.

Após o sucesso como o mordomo Silviano, em “Império”, e já escalado para a próxima novela das 18h (“Além do tempo”, de Elizabeth Jhin”), Othon sabe que pode ser considerado uma exceção entre os colegas mais velhos:

— Esse é um grande problema hoje em dia; as pessoas rejeitam, não te dão chance de trabalho com a velhice. Tive uma oportunidade maravilhosa em “Império”, o personagem cresceu assustadoramente. Foi bom para mostrar que nós não estamos acabados. Estamos com vida para fazer todos os personagens. São 62 anos de profissão e experiência. Não é porque eu fiz grandes filmes que parei no tempo — destaca.


Com 48 anos de carreira, Beatriz Segall também diz que nem pensa em se aposentar. Recentemente, ela deu aula de interpretação teatral na Casa das Artes de Laranjeiras, no Rio, por dois meses. E estará no elenco de “Nine”, musical de Charles Möeller e Claudio Botelho, que estreia este ano em São Paulo.

— E sonho com papéis que gostaria de fazer, como a prima Bette, do (autor francês Honoré de) Balzac, e a dona do “Jardim das cerejeiras”, do (dramaturgo russo Anton) Tchekhov — conta Beatriz, que também quer voltar aos folhetins: — Eu fiz a melhor novela que já foi feita no Brasil (“Vale tudo", de 1988, na qual viveu a vilã Odete Roitman) e tenho vontade de fazer outras vilãs sim, você tem para me oferecer?

Protagonista do último episódio, “Folhas”, e no ar como a Dália de “Sete vidas”, Selma Egrei, de 66 anos, diz que “Os experientes” é um “oásis na dramaturgia brasileira”.

— Raramente temos oportunidade de um seriado valorizando atores mais velhos. Aliás, nem é raramente, é uma oportunidade única — observa.

Na série, Selma vive Francisca, uma viúva que quer curtir a liberdade após a morte do marido e se descobre na melhor fase da vida.

— Ela é uma mulher um pouco amarga como resultado de uma vida familiar não muito harmoniosa. Acho que todos nós temos um pouco de Francisca. As decepções nos mais variados campos nos atingem. Antes de chegar a essa melhor fase ela pasta bastante. Todos nós estamos na luta com altos e baixos — comenta Selma.

A atriz contracena no episódio com Joana Fomm, de 74 anos, que vive a artista plástica Maria Helena.

— Foi muito bom fazer essa série e acho que, pelo o que a gente está vendo nas novelas, os mais velhos acabam fazendo sucesso. Vide o Othon Bastos, que botou para quebrar em “Império”. Tem sempre um ator mais velho que segura a peteca. Acho muito bom juntar todo mundo nessa atração e falar sobre o que é experiência — afirma Joana.

Para a atriz, o tema do programa “é inevitável”.

— Não é uma escolha. Você vai envelhecer, queira você ou não queira. Eu acho chato. O corpo modifica, a cara modifica. Acho envelhecer, principalmente num país como o nosso, complicado — observa Joana, que faz ginástica e pilates: — Tento cuidar do corpo. Estou cuidando de mim.

Para Othon, que gosta de “andar, andar e andar”, o envelhecimento tem, sim, o seu lado chato:

— É as pessoas acharem que você está velho para fazer as coisas. Para mim, o legal é caminhar de braço dado com a vida, não deixar que a vida vá embora e ficar parado jogando gamão (risos).

Selma acredita que envelhecer “faz parte do caminho”, enquanto que, para Beatriz, “só envelhece bem quem tem sonhos”. Já para Juca, é algo “absolutamente natural”.

— Sou caipira, moro numa fazenda (em Itapira, interior de São Paulo), perto da natureza. Para mim, envelhecer é como ver a flor, a fruta verde, madura, caindo, e as folhas verdes, depois caindo, é um ciclo. Confesso que eu me senti muito bem em todas as minhas fases de vida. 


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