REGINA DUARTE COMPLETA 50 ANOS DE TV E DIZ NAO SE SENTIR ESTRELA: "NAO SOU DIVA"

De uma atriz presente no imaginário de diferentes gerações, com dezenas de papéis em 50 anos de televisão e prêmios importantes ao longo da carreira, espera-se um ataque de estrelismo ou uma exigência que dê trabalho.

Porém, quando Regina Duarte combinou de conversar com a Revista da TV, nada foi pedido.

A artista surpreendeu ao descer as escadas de sua casa, na Barra da Tijuca, com tênis de ginástica, calça e camiseta largas, celular na mão, sem maquiagem no rosto. E ao ser questionada se é vista como uma diva, ri.

— Não, mas acho engraçado. Respeito essa palavra. Sou de uma geração em que ator era operário da arte. Esse glamour hollywoodiano que tentam impingir à nossa profissão está errado. A gente tem que acordar cedo, preparar o corpo, a voz, decorar texto, ler muita literatura. Aliás, tenho um calhamaço para decorar. Meu personagem é muito verborrágico — justifica a atriz, no ar como a Esther de “Sete vidas”.

Depois de refletir, dá exemplo de uma situação em que pode ser vista como uma artista que se sente num pedestal:

— Tenho algumas coisas que alguém poderia dizer que seriam atitudes de diva. Só visto uma roupa em cena se eu achar que ela fala com a proposta. Isso é coisa de diva? Não sei, talvez. Negocio com a figurinista. Quero um figurino que me respeite como atriz. Diva não é aquela que só fala amém para si mesma? É um direito meu de atriz revindicar uma parcela de criatividade para mim.

Antes de entrar na trama das 18h, escrita por Lícia Manzo, a personagem de Regina provocou expectativa por ser uma viúva homossexual que teve dois filhos por inseminação artificial.

— As pessoas só se referiam a Esther como “a lésbica", “a homossexual". Isso é uma característica que não está na linha de frente dela. Ela tem outras coisas muito sedutoras — minimiza a atriz, afirmando que Esther caiu no gosto do público: — Conheço por táxis, aeroportos, supermercado, feira e consultórios aonde vou. Em todo lugar, a reação é fantástica. As pessoas dizem que ela é alguém que gostariam de ter por perto.

Apesar de a questão da sexualidade da personagem ser tratada de maneira direta em “Sete vidas”, Estela (Nathalia Timberg) e Teresa (Fernanda Montenegro), da novela “Babilônia”, não tiveram a mesma aceitação dos telespectadores.

— O problema está na forma de apresentar o tema ao público. Uma colega disse que, quando viu o beijo de Estela e Teresa, não as conhecia, estava sendo apresentada às personagens. Então, o beijo que vi foi da Fernanda e da Nathalia — opina Regina: — Isso tornou claro o quanto a forma de colocar o assunto para o público foi precipitada. Quem são essas mulheres? Aí, posso receber um beijo delas, assim como já recebemos entusiasticamente outros beijos em outras novelas. Não acho que estejam forçando a barra para introduzir um assunto que precisa ser discutido.

Nas últimas semanas, surgiram rumores de que Esther terá um relacionamento.

— Não sei de nada. Havia um hipótese na sinopse de que ela teria uma relação amorosa. Tanto ela pode conhecer um homem e se apaixonar ou conhecer uma mulher e viver uma relação — disfarça.
 

Na trama, a personagem costuma interferir na maneira como o filho e a nora cuidam dos herdeiros. Na vida real, Regina entrega que tem o hábito de dar pitacos na criação de seus cinco netos.

— Vou até um certo ponto e paro para não ficar aquela sogra ou avó inconveniente. Tenho bastante semancol, mas nunca deixo de colocar. Não sei se vou falar para sempre “No meu tempo, a gente lidava com isso assim assado” — conta a atriz, que não gosta de “estragar” os pequenos, tampouco de incentivá-los a comer besteiras que seus filhos, André, Gabriela e João Ricardo, não permitiriam: — Pelo contrário. Comigo eles sabem o que não pode, que não tenho refrigerante em casa, é tudo natureba.

A boa recepção de Esther reforça o histórico de papéis fortes ao longo da carreira de Regina, que começou na TV na novela “A deusa vencida”, que estreou em julho de 1965, na extinta Excelsior. A primeira personagem se chamava Malu e, anos mais tarde, inspirou o nome da protagonista de “Malu mulher” (1979), seriado que a fez deixar de ser a namoradinha do Brasil e marcou época por mostrar um lado independente feminino e discutir temas polêmicos nos anos 1970, como masturbação, orgasmo e homossexualidade.

— Tive sorte, sorte existe. Agarrei as oportunidades de interpretar essas mulheres. O que mais me deixa gratificada é sentir que elas fizeram a diferença na vida do público. Estimularam pessoas a ter força para enfrentar a dor, o fracasso, todas as misérias da vida.

Regina crê que se tornou mais forte graças à influência das personagens:

— Sinto que hoje sou rica por ter convivido com essas mulheres. Não tem tempo ruim para mim. Tenho um esquema de defesa equipado para enfrentar as dificuldades. Eu não me entrego. Sou resistente à dor. Nunca fiquei doente numa novela. Sou biônica?

Mesmo aos 68 anos, ela garante que a idade não é um fator para limitar o trabalho.

— Há papel para todo mundo. Há tantas atrizes da minha faixa trabalhando. O que talvez não haja é um conceito de protagonismo antigo. As novelas de hoje têm 80 pessoas. A trama se concentra 60% numa faixa bem jovem e 10% numa faixa mais velha. Tem que haver os avós.

Regina diz que envelhecer não é um problema e afirma não dar tanta importância à vaidade.

— Não adianta ter uma embalagem maravilhosa porque o interno se impõe no fundo do teu olho. Não sou uma pessoa vaidosa. Na rua, uso zero maquiagem. Os fãs ficam meio chocados. Já cansei de ouvir em banheiros: “Nossa, ela é mais bonita na televisão. Por que ao vivo ela é feia?” — revela, alegando ter feito apenas uma intervenção estética: — Nunca pus botox. Fiz um lifting daqueles que repuxam tudo, com 39 anos, coisa de maluca. Não me arrependo. Isso me tirou 15 anos. Hoje não sei, pois tudo tem prazo de validade. E não fiz mais nada.

Famosa desde os anos 1960, ela jura que consegue passar despercebida nas ruas.

— Ando em todos os lugares sem ser reconhecida. Só os paparazzi do Aeroporto Santos Dumont me reconhecem pela minha mala vermelha. A roupa me disfarça. Eu só não posso falar, minha voz é conhecida.

Mas no mundo virtual a paulista já virou hit mais de uma vez. Um dos sucessos é o vídeo em que aparece dançando de um jeito peculiar à beira da piscina de um hotel, em Nova York (“Foi divertido”, relembra). Outro momento em que seu rosto ficou em evidência foi nas eleições presidenciais de 2002, quando ela participou da campanha do PSDB, dizendo que tinha medo de Lula ser eleito, imagem que até hoje é meme nas redes sociais. Sem dar seu posicionamento político hoje, ela se diz insatisfeita: 


— Por mais que eu escolhesse as melhores palavras, não conseguiria falar da minha indignação e do meu horror do que está acontecendo no nosso país. Não sei expressar o tamanho do descarrilhamento que estamos vivendo. Claro que tenho (esperança de que vai melhorar). Seria muito doloroso não ter. Acordo todos os dias e e falo “força e esperança”.

Sem planos de aposentadoria, Regina pretende dedicar mais tempo à direção de teatro, função que passou a exercer em 2012.

— Hoje, eu quero ficar em casa para montar um espetáculo. Não me interessa mais viajar. Viajei bastante já. A viagem agora é para dentro, tentando descobrir o que foi importante, o que me tornou a pessoa que eu sou e depor sobre isso na minha arte. Viajando vou me distrair com o quê? Com velharia?

Regina é um exemplo a ser seguido na terceira idade. Ativa e atuante na sua profissao quase aos 70 anos, ele foi madrinha de lançamento da primeira versão da Revista Terceira Idade impressa. Leia mais em:

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http://oglobo.globo.com/cultura/revista-da-tv/regina-duarte-completa-50-anos-de-tv-diz-nao-se-sentir-uma-estrela-nao-sou-diva-16502012