A VELHICE É A NOVA JUVENTUDE


Quando foi contactada, em 2004, pelos curadores do Metropolitan Museum of Art, de Nova Iorque, que procuravam peças originais para uma exposição de acessórios, Iris Apfel sugeriu emprestar também alguma da sua roupa para os enquadrar. Depois de analisarem armários, gavetas e centenas de caixas arrumadas em cima dos móveis e debaixo das camas do seu apartamento na Park Avenue, os organizadores mudaram radicalmente de ideias e a proposta passou a ser outra: meses depois, a nova-iorquina inaugurava a própria exposição no Metropolitan, que começou com 10 conjuntos e acabou com mais de 80.

Os manequins pareciam saídos de um filme surrealista: um, com um casaco colorido de penas de galo e pato, sentado em cima de uma avestruz; outro, com um look feito à medida (saia, casaco, botas e carteira), com estampado integral de leopardo, a segurar o próprio animal com uma corda. O sucesso foi tanto que, de repente, Iris Apfel se tornou uma das figuras mais comentadas nos blogues de moda, uma inspiração para os designers e um ícone de estilo construído em torno da sua imagem exótica, em que sobressaem os enormes óculos redondos, as pulseiras até aos cotovelos e os colares, de vários materiais, uns em cima dos outros. Associalites começaram a copiá-la, Ralph Lauren ofereceu-lhe emprego e Lindsay Lohan quis contratá-la como assessora de imagem, propostas que recusou.

Protagonista de nova campanha

À exposição, que passou por outros museus norte-americanos, seguiu-se o livro Rare Bird of Fashion – the Irreverent Iris Apfel (Ave rara da moda – a irreverente Iris Apfel) que reúne os seus modelos exclusivos. Iris ganhou o prémio Ícone Global de Estilo, atribuído pelo WGSN, o sitede tendências mais famoso dos Estados Unidos, e foi nomeada para a lista dos mais bem vestidos da revistaVanity Fair. Foi homenageada com um documentário sobre a sua vida, realizado pelo cineasta Albert Maysles. Ao mesmo tempo, lançou uma colecção de acessórios para a maior empresa de televendas americana. Quase a completar 95 anos, a 29 de Agosto, nada parece deter Iris Apfel, que acaba de protagonizar uma campanha para os famosos armazéns norte-americanos Macy’s.



A "ave rara", como é tratada, sempre gostou de misturar texturas, cores e estampados, subvertendo os códigos da moda. Pode combinar um fato Dior com um colar comprado num souk de Marraquexe ou umas calças de couro D&G com um cinto feito pelos índios zunhis e uma pregadeira em forma de papagaio de tamanho real. "Odeio coisas que combinam", revela. O seu estilo ímpar foi várias vezes revelado no New York Times, nas páginas de Bill Cunningham, o fotógrafo que capta imagens de pessoas que não passam despercebidas na Quinta Avenida. Mas adesigner de interiores diz que, quando se arranja, a sua única preocupação é sentir-se bem: "Visto-me unicamente para mim. Espero que as pessoas gostem. Se não gostarem, o problema é delas."

Quadro do Velásquez

O pai era dono de uma fábrica de espelhos e a mãe de umaboutique. Foi com ela que, aos 12 anos, começou a ir às feiras e antiquários à procura de coisas originais e sobretudo de "pechinchas" – um princípio que mantém ainda hoje em matéria de compras. Quando encontra roupas muito baratas e de que gosta, nem as experimenta: "Se não me servirem, é fácil: transformo-as em almofadas." Iris garante que não paga mais de 15 euros por uns jeans e que nunca daria 500 ou 700 euros por uma carteira. Quem a ouve falar, não acredita que o seu apartamento está cheio de relíquias e obras de arte valiosíssimas, como um quadro de Velásquez, do século XVII, que ela conta que comprou apenas por ter adorado o penteado da infanta espanhola representada na pintura.

Depois de ter estudado arte na Universidade de Nova Iorque, em 1948 Iris casou com Carl Apfel (na foto), com quem esteve até à sua norte, no ano passado, aos 101 anos. Fundaram a Old World Weavers, uma empresa de tecidos e decoração. Tiveram clientes como Greta Garbo e Estée Lauder e foram responsáveis pela redecoração da Casa Branca durante as administrações de oito Presidentes, de Harry Truman a Bill Clinton.Viajaram pela Europa, África, Médio Oriente, Índia e Ásia e apaixonaram-se pelo artesanato e pela forma de vestir de outras culturas.


Muito solicitada para se pronunciar sobre moda, Iris Apfel (que abomina chinelas de enfiar no dedo) não poupa ninguém. Afirma por exemplo que nenhuma das actuais vedetas de Hollywood merece a sua admiração. "São produzidas por pessoas que deveriam ir para a reabilitação." Em matéria de elegância, a designer vai buscar referências aos anos 50 e 60. Ainda surpreendida com o seu estatuto – que já definiu como "vedeta geriátrica" –, Iris confessa que nunca pensou que isto lhe fosse acontecer. Isso diverte-a: "Recebo pilhas de cartas e tenho um clube de fãs só com gente jovem. Não é tão engraçado?"